Você já tocou um acorde sem saber de onde ele vem? A resposta quase sempre passa pelas tríades. Dó maior, Lá menor, Sol maior: por trás de cada cifra "simples" existem apenas três notas empilhadas, e quem entende essa estrutura passa a enxergar o braço da guitarra de outro jeito.
Este guia faz parte da série de teoria musical para guitarristas. Depois de conhecer a escala maior, as tríades são o passo natural: elas saem da escala e viram acordes. Vamos do zero, sem pressa, com diagramas, tablaturas e três aulas em vídeo em português.
O que são tríades
A palavra vem de "tri", três. Tríades são acordes formados por três notas diferentes, empilhadas de terça em terça. A nota de baixo é a fundamental, que dá nome ao acorde. Acima dela vem a terça, que decide se o acorde soa alegre ou triste, e por fim a quinta, que dá firmeza ao conjunto.
Pense em uma torre de três andares. Em Dó maior, o primeiro andar é Dó, o segundo é Mi e o terceiro é Sol. Tire qualquer andar e a torre cai: sem a terça, o acorde perde o caráter; sem a quinta, perde o peso. É por isso que as tríades são chamadas de acordes básicos e que quase tudo na harmonia, dos acordes com sétima aos acordes de jazz, é construído sobre elas.
Muita gente escreve "triades" sem acento ao pesquisar, e o conceito é o mesmo. O importante é entender que tríade não é um acorde especial: é a estrutura mínima de qualquer acorde que você já conhece.
Os 4 tipos de tríades
Tudo depende da distância entre as notas. Se quiser rever as distâncias, leia o guia de intervalos musicais. Chamamos de terça maior a distância de quatro semitons (quatro casas) e de terça menor a de três semitons (três casas). Combinando as duas, saem os quatro tipos de tríades:
| Tipo de tríades | Fórmula | Empilhamento | Em Dó | Cifra |
|---|---|---|---|---|
| Maior | 1 – 3 – 5 | terça maior + terça menor | Dó – Mi – Sol | C |
| Menor | 1 – b3 – 5 | terça menor + terça maior | Dó – Mib – Sol | Cm |
| Diminuta | 1 – b3 – b5 | terça menor + terça menor | Dó – Mib – Solb | Cdim ou C° |
| Aumentada | 1 – 3 – #5 | terça maior + terça maior | Dó – Mi – Sol# | Caug ou C+ |
As tríades maiores soam abertas e estáveis. As tríades menores soam mais escuras, porque a terça desce um semitom. As tríades diminutas soam tensas e pedem resolução, e as aumentadas soam suspensas, como uma pergunta sem resposta. Na prática, as duas primeiras aparecem em quase todas as músicas, e as outras duas dão tempero.
Um truque para fixar: parta sempre da tríade maior. Para virar menor, abaixe a terça. Para virar diminuta, abaixe a terça e a quinta. Para virar aumentada, suba a quinta. Só uma ou duas notas mudam por vez, e o ouvido percebe a diferença de cara.
Como formar tríades a partir da escala maior
Existe um jeito de formar tríades sem decorar nada: pegar uma escala maior e pular uma nota sim, uma não. Em Dó maior (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si), as tríades começam em cada nota: a do Dó usa Dó, Mi e Sol, e a do Ré usa Ré, Fá e Lá. Repetindo o processo em cada grau, você ganha sete tríades a partir de uma única escala.
Esse conjunto é o campo harmônico. Em Dó maior, ele fica assim:
| Grau | I | ii | iii | IV | V | vi | vii° |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Tríades | C | Dm | Em | F | G | Am | Bdim |
| Notas | Dó Mi Sol | Ré Fá Lá | Mi Sol Si | Fá Lá Dó | Sol Si Ré | Lá Dó Mi | Si Ré Fá |
| Tipo | maior | menor | menor | maior | maior | menor | diminuta |
Repare no padrão: três tríades maiores (I, IV e V), três menores (ii, iii e vi) e uma diminuta (vii°). Esse desenho vale para qualquer tom maior, e é por isso que tantas músicas usam as mesmas combinações de acordes. Para ir mais fundo, leia o guia de campo harmônico maior e menor.
Tríades maiores e menores nos 12 tons
Com a regra de "terça maior mais terça menor", você monta tríades em qualquer tom. A tabela abaixo reúne as 12 tríades maiores e as 12 menores, cada nota escrita com a letra certa (sem notas duplicadas) e conferida contra a fórmula.
| Tríades maiores | Notas | Tríades menores | Notas |
|---|---|---|---|
| Dó | Dó – Mi – Sol | Dó menor | Dó – Mib – Sol |
| Réb | Réb – Fá – Láb | Dó# menor | Dó# – Mi – Sol# |
| Ré | Ré – Fá# – Lá | Ré menor | Ré – Fá – Lá |
| Mib | Mib – Sol – Sib | Mib menor | Mib – Solb – Sib |
| Mi | Mi – Sol# – Si | Mi menor | Mi – Sol – Si |
| Fá | Fá – Lá – Dó | Fá menor | Fá – Láb – Dó |
| Fá# | Fá# – Lá# – Dó# | Fá# menor | Fá# – Lá – Dó# |
| Sol | Sol – Si – Ré | Sol menor | Sol – Sib – Ré |
| Láb | Láb – Dó – Mib | Sol# menor | Sol# – Si – Ré# |
| Lá | Lá – Dó# – Mi | Lá menor | Lá – Dó – Mi |
| Sib | Sib – Ré – Fá | Sib menor | Sib – Réb – Fá |
| Si | Si – Ré# – Fá# | Si menor | Si – Ré – Fá# |
Não precisa decorar a tabela. Aprenda a fórmula e use a tabela como consulta. As tríades mais comuns na guitarra são as de Dó, Ré, Mi, Sol e Lá, maiores e menores, porque combinam com as cordas soltas do instrumento.
Tríades na guitarra: por que três cordas
No piano, as tríades cabem em uma mão. Na guitarra, o raciocínio é parecido: você usa três cordas vizinhas, uma nota em cada. Como o instrumento tem seis cordas, sobram quatro grupos possíveis, e cada nota do acorde pode ficar no baixo, o que gera as inversões.
A afinação ajuda a entender o desenho. As cordas são afinadas em Mi, Lá, Ré, Sol, Si e Mi, e a distância entre cordas vizinhas é de uma quarta (cinco casas), exceto entre a Sol e a Si, onde é de uma terça maior (quatro casas). Por isso o desenho das tríades muda quando o grupo de cordas inclui o par Sol–Si, e fica igual nos outros.
Outro ponto: as tríades que vamos usar aqui são formas móveis, sem cordas soltas. Você aprende o desenho uma vez e desliza pelo braço para trocar de tom, do mesmo jeito que se faz com a pestana. Para saber o nome das notas em cada casa, o guia de notas do violão é uma boa consulta, e o sistema CAGED mostra de onde vêm os acordes completos.
Inversões das tríades: fundamental, 1ª e 2ª
Uma inversão é só uma troca da nota do baixo. As três notas continuam as mesmas, mas a ordem muda:
- Fundamental (ou posição fechada): a fundamental está no baixo. Dó, Mi, Sol.
- 1ª inversão: a terça está no baixo. Mi, Sol, Dó. Na cifra, C/E.
- 2ª inversão: a quinta está no baixo. Sol, Dó, Mi. Na cifra, C/G.
Vamos ver as três em Dó maior nas cordas 1, 2 e 3 (Sol, Si e Mi agudo). As notas Dó aparecem em verde, e os números mostram a casa de cada corda, do grave para o agudo:
C C/E C/G e|-3-----8-----12---| B|-5-----8-----13---| G|-5-----9-----12---| D|------------------| A|------------------| E|------------------|
Toque as três em sequência e repare: o acorde é o mesmo, mas o som muda de "altura". A fundamental soa firme, a 1ª inversão soa mais leve e a 2ª inversão soa aberta, quase suspensa. Em uma banda, essa variedade é o que deixa o acompanhamento interessante sem precisar de mais notas.
Vale uma observação: as inversões não mudam o nome do acorde, só o baixo. Por isso a cifra usa a barra: C/E lê-se "Dó com baixo em Mi". Quem lê cifras de violão e guitarra já viu essa notação em músicas do dia a dia.
Tríades nos 4 grupos de cordas
Agora o mapa completo. Para cada grupo de três cordas, vamos ver as três inversões das tríades de Dó maior. Todas usam as mesmas três notas e foram calculadas pelo menor trecho do braço, sem cordas soltas. Comece pelo grupo das cordas agudas, o mais usado, e depois explore os outros.
Tríades de Dó nas cordas 1, 2 e 3 (Sol, Si e Mi agudo)
Tríades de Dó nas cordas 2, 3 e 4 (Ré, Sol e Si)
Tríades de Dó nas cordas 3, 4 e 5 (Lá, Ré e Sol)
Tríades de Dó nas cordas 4, 5 e 6 (Mi grave, Lá e Ré)
Resumo das casas, sempre do grave para o agudo dentro de cada grupo:
| Grupo de cordas | Fundamental | 1ª inversão | 2ª inversão |
|---|---|---|---|
| cordas 1, 2 e 3 | 5–5–3 | 9–8–8 | 12–13–12 |
| cordas 2, 3 e 4 | 10–9–8 | 14–12–13 | 5–5–5 |
| cordas 3, 4 e 5 | 15–14–12 | 7–5–5 | 10–10–9 |
| cordas 4, 5 e 6 | 8–7–5 | 12–10–10 | 3–3–2 |
Como as formas são móveis, para tocar as tríades de Ré maior basta subir duas casas em qualquer um desses desenhos. Para Mi, quatro casas. É assim que as tríades viram um sistema: um desenho, doze tons. O cuidado é com o grupo que inclui as cordas Sol e Si: sempre que a nota do baixo passar da corda Sol para a Si, a casa sobe um pouco, como você viu nos números.
Tríades menor, diminuta e aumentada
Sabendo as tríades maiores, as outras vêm de graça. Veja as quatro tríades com fundamental em Dó, tocadas no mesmo ponto do braço (cordas 1, 2 e 3, fundamental):
C Cm Cdim Caug e|-3-----3-----2-----4----| B|-5-----4-----4-----5----| G|-5-----5-----5-----5----| D|------------------------| A|------------------------| E|------------------------|
Compare os números e veja o que muda. Da maior (5-5-3) para a menor (5-4-3), só a terça desce uma casa na corda Si. Da menor para a diminuta (5-4-2), a quinta desce uma casa na corda Mi. Da maior para a aumentada (5-5-4), a quinta sobe uma casa. Cada passo é uma casa em uma corda: é a forma mais rápida de sentir o caráter de cada uma das tríades.
As tríades diminutas aparecem no sétimo grau da escala maior (Si diminuto, em Dó maior) e pedem resolução, como se estivessem "empurrando" para o acorde seguinte. As aumentadas são mais raras e funcionam bem em finais de frase ou em passagens, criando suspense.
Tríades em uma progressão: troque de acorde com pouco movimento
Aqui as tríades mostram seu valor prático. Toque a progressão mais famosa do pop e do rock, C – G – Am – F (I – V – vi – IV em Dó maior), sempre nas cordas 1, 2 e 3. Em vez de pular pelo braço, escolhemos a inversão de cada acorde que fica mais perto do anterior. O resultado é um acompanhamento que "conversa" entre os acordes:
C G Am F e|-3-----3-----5-----5----| B|-5-----3-----5-----6----| G|-5-----4-----5-----5----| D|------------------------| A|------------------------| E|------------------------|
Os dedos praticamente não saem do lugar: em vez de mudar quatro formas de acorde, você faz pequenos deslocamentos de uma ou duas casas. Esse é o segredo de guitarristas de funk, pop e música gospel, que preenchem a harmonia sem poluir o som da banda. Se você ainda está montando os primeiros acordes, comece pelos 7 primeiros acordes para guitarra e volte aqui depois.
Para praticar, use um metrônomo online e toque cada acorde por quatro tempos, a 60 bpm. Quando estiver limpo, troque a cada dois tempos. O dicionário de acordes do site ajuda a conferir qualquer cifra que você encontrar.
Arpejos de tríades: das notas do acorde ao solo
Quando você toca as notas das tríades uma de cada vez, em vez de juntas, o resultado é um arpejo. Essa é a ponte entre acordes e solos: as tríades mostram quais notas "cabem" sobre cada acorde, e o arpejo transforma essas notas em melodia. O guia de arpejos aprofunda a técnica.
O primeiro exercício é subir o braço com as tríades de Dó nas três inversões, tocando as notas em sequência, do grave para o agudo. É uma escada que liga as três regiões do braço:
e|-----------3--------------8--------------12--| B|------5--------------8--------------13-------| G|-5--------------9--------------12------------| D|---------------------------------------------| A|---------------------------------------------| E|---------------------------------------------|
O segundo exercício aplica o arpejo na progressão que você acabou de aprender. Toque as notas das tríades em sequência, mantendo as inversões escolhidas:
e|-----------3--------------3--------------5--------------5---| B|------5--------------3--------------5--------------6--------| G|-5--------------4--------------5--------------5-------------| D|------------------------------------------------------------| A|------------------------------------------------------------| E|------------------------------------------------------------|
Quando as tríades estiverem no ouvido, tente trocar o ritmo: dois tempos para cada nota, depois três notas em colcheias e uma pausa. As notas são as mesmas, mas o jeito de tocar muda o resultado. Para treinar a mão direita, o guia de palheta de guitarra ajuda a escolher a espessura certa.
O que ajuda no estudo das tríades
Você não precisa de nada novo para aprender tríades: uma guitarra afinada e um metrônomo bastam. O que acelera o aprendizado é tocar sobre uma base. Um pedal de loop grava a sua própria progressão e a repete, deixando as duas mãos livres para testar as inversões em cima. Para comparar modelos, veja o guia de melhores pedais de loop para guitarra.
Plano de treino de 4 semanas para dominar as tríades
Com 20 minutos por dia, dá para ter as tríades na mão em um mês. O plano abaixo segue do simples ao completo, e cada semana prepara a seguinte.
| Semana | Foco | Treino diário | Meta |
|---|---|---|---|
| 1 | Tríades maiores e menores nas cordas 1-2-3 | As três inversões de Dó maior e Dó menor, devagar, 60 bpm | Tocar sem olhar para o braço |
| 2 | Os 4 grupos de cordas | As tríades de Dó nos quatro grupos, três inversões em cada | Saber onde está o Dó em cada grupo |
| 3 | Mudar de tom | Deslizar o desenho para Ré, Mi, Sol e Lá, maiores e menores | Formar tríades em 5 tons |
| 4 | Progressão e arpejo | C – G – Am – F com inversões próximas e depois em arpejo | Tocar a progressão com poucos movimentos |
Divida a sessão assim: 5 minutos de aquecimento, 10 minutos no foco da semana e 5 minutos aplicando em uma música que você já conhece. Para encaixar tudo na rotina, leia quanto tempo praticar guitarra por dia e o guia de como aprender guitarra sozinho.
Erros comuns ao estudar tríades
- Decorar o desenho sem saber as notas. Se você não consegue dizer quais são as notas das tríades, só decorou forma. Diga Dó, Mi e Sol em voz alta ao tocar.
- Tocar as seis cordas. As tríades usam só três cordas. Abafe as outras com a palma da mão direita ou com os dedos livres.
- Estudar um grupo só. Quem conhece apenas as cordas agudas fica preso nelas. Passe pelos quatro grupos.
- Esquecer as inversões. Sem elas, cada troca de acorde vira um salto no braço.
- Misturar as cordas Sol e Si. O par é o único com terça maior de distância. Se o desenho "falhar" aí, confira as casas.
- Confundir tríades com power chord. O power chord não tem terça. Compare com o guia de power chord para ouvir a diferença.
- Treinar sem metrônomo. A troca limpa entre tríades só aparece com pulso constante.
Resumo: o que levar das tríades
As tríades são acordes de três notas, empilhadas de terça em terça, e existem em quatro tipos: maior, menor, diminuta e aumentada. Na guitarra, cada uma pode ser tocada em três inversões e em quatro grupos de cordas, sempre com formas móveis. Aprenda a fórmula, treine os desenhos, use a inversão mais próxima ao trocar de acorde e transforme as notas em arpejo. O próximo passo é a escala menor natural, e o guia de teoria musical mostra o caminho completo.
Glossário rápido de tríades
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Tríade | Acorde de três notas: fundamental, terça e quinta. |
| Fundamental | A nota que dá nome ao acorde (Dó, em Dó maior). |
| Terça | A nota que define se o acorde é maior ou menor. |
| Quinta | A nota que dá firmeza ao acorde; é justa, diminuta ou aumentada. |
| Inversão | Tocar as mesmas notas com outra nota no baixo. |
| Campo harmônico | Os sete acordes que nascem das sete notas de uma escala. |
| Forma móvel | Desenho sem corda solta, que desliza pelo braço para trocar de tom. |
| Arpejo | As notas do acorde tocadas uma de cada vez. |